Registro do Debate do Tutorial 2 - Atuação do Psicólogo Escolar
Mentes Perigosas
No filme Mentes Perigosas vemos uma professora tentando ensinar uma classe “especial” de alunos montada pela escola na qual foi contratada: os chamados alunos-problema. A personagem LouAnne encara uma nova realidade ao enfrentar uma classe multi-étnica cujos alunos são desmotivados, desrespeitosos e violentos. A professora não consegue ganhar a atenção da classe por meio de métodos tradicionais, e passa então a faze uso de técnicas típicas da análise do comportamento como reforçar comportamentos adequados, deixar de reforçar os inadequados e ir aos poucos retirando os reforços arbitrários para que surja o reforço natural – no caso, o prazer de estudar, o conhecimento. Assim, a professora dá doces, balas, um jantar em um bom restaurante e um passeio no parque de diversão quando os alunos prestavam atenção a sua aula ou faziam as tarefas de casa, ou minimamente se esforçavam. Aos poucos, ela vai ganhando a confiança e o respeito dos alunos, porém para tanto, ela se envolve intimamente no mundo deles, fazendo muito mais do que as atribuições de professora. Ela vai a casa de alguns alunos, procura conversar com suas famílias e chega ao ponto de abrigar um de seus pupilos em sua casa, pois ele estava ameaçado de morte. Com esse mergulho, ela percebe a realidade triste dos alunos que vivem em condições precárias de segurança, extremamente vulneráveis, alvos fáceis de traficantes e bandidos e com escassos recursos materiais. Ao se deparar com a história de vida dos alunos e com o contexto em que cresceram, será que é possível culpá-los indiscriminadamente por sua rebeldia, seu jeito agressivo e pela falta de interesse nos estudos? Afinal, a maioria deles não tinha nenhum exemplo, nenhum modelo próximo a suas realidades que tivesse sido bem sucedido por meio dos estudos. A psicologia sócio-histórica nos alerta para a importância de considerar a cultura e o contexto em que se desenvolve o indivíduo. Cada aluno é único e tem um repertório vastíssimo de experiências com uma rede social específica que auxiliou no seu desenvolvimento. LouAnne, diferentemente de muitos professores, se atenta a esses aspectos anteriores à escola, e com essa estratégia obtém excelentes resultados para uma turma até então abandonada. No entanto, pode-se questionar se ela não tomou para si muito mais obrigações do que deveria e até do que podia, tendo que tornar-se uma super-heroína para dar conta de todos os problemas da turma. Até onde vão as atribuições do professor? Vemos claramente no filme um sistema de ensino precariamente organizado e limitadíssimo pelas regras da secretaria de educação, muitas delas absolutamente incoerentes. O filme para mim foi um exemplo claríssimo da necessidade da presença de um (ou mais) psicólogo escolar na escola, inserido mesmo no ambiente dela, podendo avaliar com clareza sua dinâmica, conhecer os alunos, os professores e junto a eles promover um trabalho que enfatizasse as potencialidades dos alunos, não seus comprometimentos, reduzisse a segregação entre os alunos “bons” e os “ruins”, estimulasse o diálogo entre os professores e dos professores com os alunos, mobilizasse a luta frente às regras ilógicas da secretaria de educação entre tantas outras melhorias, obviamente, tudo isso muito, muito aos poucos. Mas a escola precisa desse agente que possa ser o mediador entre seus diversos entes, que possa principalmente escutá-los, dar voz a suas demandas de tal forma que a escola possa privilegiar ao máximo o fornecimento do seu produto que é o seu grande objetivo e maior bem: o conhecimento dos alunos.Ética

Propaganda
Achei essa propaganda muito ilustrativa da mentalidade de muitos professores até os dias de hoje, que se atentam bem mais às normas, notas e regulamentos do que ao bem maior que podem fornecer aos estudantes: o conhecimento, as aulas. Não estou dizendo que cada aluno pode chegar na hora que bem entender na classe. Obviamente devem existir regras na escola que evitem que as coisas fiquem desorganizadas. O padrão de horário de chegada, de intervalo, uniforme para todos, médias e etc é necessário até para que não haja injustiças. Porém quantas vezes vemos alunos interessados sendo injustiçados simplesmente porque o professor não foi com a sua cara? Porque é extrovertido demais, ou tímido demais? Porque aquela aluna passa muito a mão nos cabelos? Porque aquele outro tem aquela mania irritante de escrever comlápis, e não com caneta? Porque a letra desse outro é grande demais/pequena demais? Porque aquele aluno bocejou na minha sala às 7h10 da manhã e eu acho isso uma tremenda falta de respeito?? E aquele professor de exatas da UnB que decidiu ao início do curso que nesse semestre só metade da turma passará na sua matéria?
A verdade é que a escola para mim parece ainda estar coberta de imposições que importam muito pouco comparadas ao que realmente importa.
Memorial

Registro de duas experiências da vida escolar - uma positiva, outra negativa.
Registo do Debate do Tutorial 1 - Formação do Psicólogo Escolar

De Luria

Estudo Dirigido
Tirinha

Cuidado, Escola!

ANÁLISE CRÍTICA – “CUIDADO, ESCOLA!”
Há muito que se discute o papel das escolas no desenvolvimento infantil. Fala-se sobre as práticas curriculares, formas de incentivar os alunos, programas de aulas, horários etc. Entretanto, nem sempre essa discussão é ampliada para tratar do alcance das vivências experimentadas na escola quando generalizadas para outros contextos, ou de modo semelhante, quando a escola é vista como apenas parte (importante, mas não única) dos muitos espaços de desenvolvimento com os quais a criança tem contato.
Sob essa perspectiva, a escola não deve ser tratada como contexto estanque do desenvolvimento infantil, alheio ao mundo exterior onde vive a criança. Infelizmente, nem sempre é assim que a escola é entendida. O livro “Cuidado, escola!” (Harper, Ceccon, Oliveira & Oliveira, 1985) volta a atenção do leitor para o contexto sócio-histórico em que a escola está inserida, sugerindo que através dos seus diferente métodos de ensino, a escola repete e reflete a posição política dominante de sua sociedade, bem como os valores e ideologias mais bem aceitos por ela.
É interessante notar que a proposta do livro e as reflexões que ele traz são muito pertinentes ainda atualmente, a despeito de ele ter sido publicado na década de 1980. Apesar de não ter vivido a “crise escolar” dessa época, o livro a descreve com muita clareza e é possível notar que os problemas que geravam insatisfação em professores, pais e alunos, bem como o temido “fracasso escolar” são muitos os mesmos até hoje. Percebe-se que a maior parte deles decorre da dificuldade de considerar a escola como parte da vida dos alunos que deve se integrar e se relacionar com os outros aspectos da vida do estudante.
Entendo que uma pequena porção do problema, principalmente para os professores mais velhos, está na dificuldade dos docentes de aceitarem as mudanças do lado de fora dos muros da escola, mudanças sociais, tecnológicas e culturais que se demonstram na diferença de comportamento dos alunos ao longo dos anos. Penso que muitos professores não se empenham em tentar adaptar-se aos novos interesse, formas de expressão e pensamentos dos alunos. Talvez por isso muitos estudantes não se sintam incentivados com a escola ou desgostem de algumas aulas em particular, pois não se sentem acolhidos ou compreendidos pelos professores, que possuem um mesmo estereótipo de “comportamento exemplar dos alunos” desde a época em que foram ensinados.
O professor precisa discriminar o que é interessante para a classe, quais formas de transmissão do conteúdo, demonstrações e até mesmo de linguagens diversas capturam a atenção dos alunos, e tentar trabalhar com isso de uma forma na qual não se perca a autoridade. É importante também transferir o foco do ato de ensinar para o de aprender. Apesar de este último ser, a meu ver, o objetivo essencial de qualquer professor, muitos não o exercitam na prática, julgando seu desempenho apenas pelo modo de transmissão dos ensinamentos e não considerando o quanto os alunos compreendem dessa transmissão. Dessa forma, é muito fácil transferir a culpa pelas dificuldades de aprendizado exclusivamente aos alunos...
Um dos pontos do texto que mais me intrigou foi a descrição de como os alunos são precocemente, ao seis ou sete anos, acorrentados à carteira, onde passam boa parte da sua vida em uma mesma posição, tentando aprender os conteúdo em uma pose um tanto desconfortável, além de prejudicial à coluna. Isso é preocupante especialmente para os mais jovens, que estão em fase de desenvolvimento físico e cheios de energia borbulhando para ser liberada. É um aspecto simples da dinâmica escolar e de fácil solução, que pode, entretanto, fazer enorme diferença na motivação dos alunos.
Outro ponto trazido pelo texto que julguei de importante discussão é o que diz respeito à forma de trabalho na escola predominantemente individualista. Os alunos são estimulados com mais frequência a pensarem e estudarem sozinhos do que em grupo. Esse funcionamento também vale para as avaliações, prioritariamente individuais.
A falta de maior contato com os colegas de classe e com o próprio professor durante a aprendizagem mostra que muitas escolas não tomaram consciência da importância do trabalho na zona de desenvolvimento proximal descrita por Vigotski (Vigotski, 2007). De acordo com essa ideia, seria muito válido o trabalho em equipe, assim como as avaliações que contassem com a ajuda do professor, uma vez que a aprendizagem é mais rápida e eficaz se o ensino foi feito por meio de mediações sociais nas quais participaram instrutores mais experientes. Seria muito interessante também, a meu ver, que houvesse mais trabalhos práticos na escola, envolvendo experiências palpáveis que demonstrassem na realidade os conteúdos que em geral são estudados apenas em teoria nos livros.
A escola muitas vezes rejeita a importância do desenvolvimento crítico dos alunos, testando a capacidade que eles têm em assimilar os conteúdos, mas raramente analisando como interpretam e criticam tais conceitos. Acredito que a escola moderna deve incentivar a participação dos alunos em discussões, seminários etc, bem como estimulá-los a pensar sobre o que está sendo aprendido, e não simplesmente a decorar a matéria.
O ideal seria que as avaliações conectassem os conteúdos de diferentes matérias para que o aluno tivesse uma visão global dos ensinamentos, e que contivessem questões que permitissem aos alunos opinar sobre o que aprendem. Afinal, ao saírem da escola, as opiniões dos estudantes como cidadãos e suas capacidades criativas também serão necessárias, em certas áreas mais até do que o conhecimento formal. Ademais, quando chegam à universidade os alunos se deparam com uma grande cobrança do desenvolvimento do senso crítico, e muitos deles encontram dificuldades de se expressar e elaborar os conteúdos, pois não foram devidamente preparados para tanto na escola. O mesmo pensamento é válido para o estímulo à criatividade, inventividade, à liberdade de expressar-se de diferentes formas; as chamadas habilidades transversais, muito pouco valorizadas pela escola, porém de extrema importância para a vida diária dos alunos.
Concordo com a conclusão de que as escolas estão repetindo entre quatro paredes um modelo político de desigualdade social, em que alguns poucos são favorecidos com boas condições de ensino em detrimento de muitos que não serão selecionados e nem mesmo incentivados a levar seus estudos adiante. Não se pode esperar que esse padrão social mude para que a escola o mimetise e enfim, progrida.
Evidentemente, para muitos de nossos governantes não é interessante investir na democratização do acesso à escola ou no progresso do ensino. Por isso é necessário convocar todos os envolvidos com a escola à mudança, a começar pelos professores. Esse sistema ultrapassado precisa ser modificado de dentro para fora, do contrário a escola será sempre refém do Estado.
Por fim, penso que é crucial que a escola comece a relativizar o sucesso e o fracasso escolar. É necessário entender que os alunos jamais apresentariam níveis exatamente iguais de compreensão e aprendizagem. Esses “níveis” variam enormemente em diferentes matérias, diferentes contextos, ou de acordo com a forma de demonstrá-los. Cada estudante tem dificuldade em algum ponto e facilidade em outro. Principalmente, cada estudante tem um ritmo diferente de aprendizagem e cada um deles tem uma forma só sua de estudar que promove o melhor aprendizado possível, que nem sempre é a utilizada pela maioria ou a que os professores entendem como a melhor. Acredito que a escola dará um salto enorme no cumprimento dos seus objetivos quando essas diferenças forem respeitadas.
Referências:
HARPER, BABETTE., CECCON, CLAUDIUS., OLIVEIRA, MIGUEL DARCY DE. & OLIVEIRA, DARCY ROSISKA DE. (1985). Cuidado, escola!. São Paulo. Brasiliense.